Reunião entre Associação Tuatuna e FUNAI fortalece diálogo em defesa do povo Puri

O Coletivo e Associação Tuatuna realizaram uma importante reunião com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas — FUNAI, por meio da Coordenação Regional Litoral Sudeste, que atua nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A coordenação regional é atualmente representada por Ubiratã Jorge de Souza Gomes, também conhecido por seu nome indígena Ubiratã Awá Baretédjú.
O encontro foi um momento de diálogo, escuta e construção coletiva. Para a Associação Tuatuna, a reunião representa um passo importante para que os órgãos oficiais enxerguem o povo Puri de forma adequada, respeitando sua história, sua presença contemporânea, sua memória ancestral, seus coletivos e seus caminhos próprios de organização.

Durante a reunião, o Tuatuna apresentou sua atuação, compartilhou a realidade dos Puri no estado de São Paulo e falou sobre os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos para fortalecer a comunidade, garantir direitos e ampliar o acesso às políticas públicas. A associação também destacou a importância de orientar famílias e pessoas Puri nos processos de reconhecimento da identidade indígena, acesso a cadastros públicos, valorização cultural e defesa de direitos coletivos.

Um dos pontos centrais do encontro foi a compreensão de que o movimento Puri não deve ser visto como algo que depende de uma “ressurgência” ou de uma “retomada” para existir. O que está em curso é, sobretudo, um processo de fortalecimento. A história do povo Puri foi atravessada por apagamentos, violências e classificações externas que tentaram declarar a etnia como extinta. Registros históricos apontam que, ainda no século XIX, os Puri passaram a desaparecer dos documentos oficiais e foram posteriormente tratados como extintos, apesar da continuidade de memórias, práticas, vínculos familiares e saberes preservados por seus descendentes.

Esse apagamento, no entanto, nunca significou desaparecimento real. O povo Puri permaneceu vivo nas famílias, nas histórias transmitidas entre gerações, nas práticas culturais, nos saberes tradicionais, nos territórios de memória e na organização contemporânea. Hoje, a presença Puri também aparece em bases oficiais: no Censo de 2010, o IBGE registrou 675 pessoas autodeclaradas Puri, e a Tabela Complementar 20 do Censo Demográfico de 2022 registra 1.290 pessoas indígenas Puri no Brasil.
A reunião também reforçou o local do Estado diante dos povos indígenas. O Estado não “autoriza” um povo a existir; cabe aos órgãos públicos registrar, atender, respeitar e garantir direitos. Em 2025, a própria presidenta da FUNAI, Joenia Wapichana, reafirmou que quem decide quem é ou não indígena são as comunidades indígenas, e não a FUNAI, em referência às exigências de comprovação de pertencimento étnico feitas por órgãos estatais.

Nesse sentido, a reunião com a FUNAI Litoral Sudeste foi fundamental para fortalecer uma relação institucional mais adequada, respeitosa e aberta com o povo Puri de São Paulo. Ainda que a FUNAI atue principalmente junto a territórios indígenas, a coordenação regional manifestou intenção de demonstrar apoio e presença, quando possível, nas ações do Tuatuna e em demais iniciativas do povo Puri.

Outro tema importante tratado no encontro foi a língua Puri. A Tuatuna compartilhou a importância da memória linguística para o fortalecimento da identidade, da cultura e da continuidade do povo. A instituição se mostrou receptiva e aberta à possibilidade de construir, em conjunto, materiais voltados à etnia, respeitando o protagonismo Puri nesse processo. Iniciativas contemporâneas de retomada e fortalecimento da língua Puri já vêm sendo reconhecidas como parte essencial da preservação da memória, da cultura e da identidade do povo.

Para o Tuatuna, o encontro reafirma que o povo Puri está vivo, presente e construindo seu próprio caminho. A luta não é apenas por reconhecimento externo, mas pela continuidade de uma existência que atravessou séculos de violência, silenciamento e negação. Cada reunião, cada documento, cada ação comunitária e cada espaço de diálogo fortalece a caminhada coletiva.

Seguimos organizados para preservar histórias, saberes e caminhos de fortalecimento do povo Puri, construindo espaços de acolhimento, orientação, defesa de direitos e valorização da cultura ancestral.

Ser Puri é manter viva a memória dos ancestrais e seguir fortalecendo os caminhos do presente e das futuras gerações.

Seguimos em caminhada.

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